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sexta-feira, outubro 06, 2006

Aromas da Minha Terra (2)





AROMAS DA MINHA TERRA (2)


1
Recanto bafejado pela corrente
Submarina de Benguela transparente
Fria, carrega nutriente riqueza
Alimentando a fauna de certeza
Perfuma de maresia a redondeza

2
À zona chegavam golfinhos e roazes
Mergulhavam patolas e alcatrazes
Voavam pelicanos, gaivotas e garajaus
Nadavam pinguins focas e outros animais
Atacando gordas sardinhas e carapaus
Festins naturais que verei jamais

3
Chuva! O Curoca escorria da Chela
Galgava solto atravessava a planura
Arrastava putrefactos da terra
Tubarões devoravam na embocadura

4
Submergia o tapete da via
Banhava margens que enriquecia
Desaparecia como por magia
Alentava o produto que florescia

5
Mais p’ra longe lá p’ra Norte
Junto à escarpada Rochinha
O mar criava exemplares de morte
Para as patuscadas na terrinha

6
Escondia a saborosa qualidade
Crescia morena a garoupinha
Que dava força à irmandade
Na hora da grande panelinha

7
Rica etnografia pouco estudada
Vou tentar em linhas contar
Coisas gentílicas da morada
Por sentir perto aquele lugar

8
No mar andavam Quimbares
Pobres de riqueza e de angolares
Origem nos Mucurocas a ligação
Assentando toda a sua tradição

9
Povo Cuanhama, vaidoso
De aroma intenso, cheiroso
Trajando semelhante a vermelho
No andarilho punha rádio e espelho

10
Cavalgava em decorada bicicleta
Sua sociedade é matriarcal aberta
Vindos do Cunene e suas margens
Atléticos pastores dessas paragens

11
Os Cuvales, altos espadaúdos Mucubais
Turbantes e elegantes peles de animais
Caçadores astutos pastoreio é paixão
Promiscuidade étnica, certeza de confusão

12
Mucancala no deserto escaldando
Norteado, palmilhava confinado
Azagaia no magro dorso carregando
Flechando certeiro, bicho coitado!

13
Baixos morenos despreocupados
Olhar atento, achinesados
Tubérculo por Deus plantado
Líquido precioso desenterrado

14
Não paga impostos nem se rala
Comunica, dá sonsinhos na fala
Rica cultura e historiografia
Recolectores, pasmam Sociologia


14/Fevereiro/2006
Abel Marques






Explicação de Aromas 2

1º e 2º poemas - A Corrente Submarina. Do Pólo Sul provém uma corrente submarina com sentido Sul/Norte, que banha a costa marítima Africana. Esta corrente descreve um semi-arco para a esquerda até à Zona da Guiné, flectindo em direcção a Oeste, onde surge uma corrente quente que vai banhar a costa Leste do continente Sul-americano (sentido Norte/Sul). A Corrente Fria de Benguela, na sua longa caminhada, tem um ponto de tangencia com o continente africano que é precisamente a costa do deserto do Namibe (ou Namíbia). Não entendo a razão pela qual tal fenómeno tem o nome de Benguela, que dista deste ponto mais de 1000 quilómetros para Norte. Sabemos que o Pólo Sul é muito rico em “Cril” (pequenos crustáceos que servem de alimento às baleias e não só) e outros microorganismos. Essa corrente (fria), na sua caminhada, carrega microorganismos, razão pela qual as suas águas são muito ricas em peixe, aparecendo também por lá muita bicharada (focas, pinguins, golfinhos, roazes e outros animais). Porto Alexandre tem por isso um clima muito temperado no verão e no tempo frio. O texto diz respeito apenas a Porto Alexandre e nada tem a ver com cidade de Benguela. Garajau (ave migratória) é a ave marinha cujo nome a Europa conhece como andorinha-do-mar e é também o nome usado na América Latina.

3º e 4º - O Rio Curoca. Trata-se de um rio efémero que só existe quando chove. De rio, existe apenas o rasto da sua passagem nítida no terreno. Fica completamente seco durante grande parte do ano (“desaparece como que por magia”), excepto nos meses de Março, Abril e Maio quando chove no planalto da Huila. A chuva escorre pela serra (com mais de 1000 metros de altura) abaixo, forma grande caudal, atravessando uma planície extensa antes de chegar ao deserto do Namibe. Ao atravessar a planície, arrasta animais e outros objectos para a foz, já apodrecidos, na zona chamada Pinda. Os corpos apodrecidos são alimento para tubarões que predominam nessa zona. Aí (Pinda), existe uma faixa rodoviária (em alcatrão) que liga Moçâmedes (Namibe) a Porto Alexandre (Tômbua) que o caudal do rio a galga, fazendo desaparecer o tapete negro durante semanas. A passagem ficava intransitável. As soluções adoptadas pela engenharia nunca resultaram porque o rio é muito inconstante. Tanto desagua num determinado sítio como no ano seguinte pode desaguar 5 quilómetros mais para lá ou para cá, não fazendo sentido qualquer ponte por ser de orçamento muito elevado. É mais económico o transporte de barco. Mas nem isso é utilizado porque é preferível aguardar (alguns dias) que as águas baixem.

5º e 6º - A fauna na panela. Para norte, a cerca de 30 quilómetros de Porto Alexandre, existe uma área rochosa, muito elevada, a pique sobre o mar (idêntica ao da ponta de Sagres mas mais escarpada e elevada) onde se pescava a garoupa (castanha e a murianga), cherne, mero e outros peixes da pedra. Em frente a esse rochedo, com quilómetros de extensão, o mar está pejado de pedregulhos que a natureza espalhou, habitat das garoupas (pesqueiro). E esse peixe da pedra não desapareceu porque as traineiras partem lá as redes de certeza, caso as lancem. Esse peixe só pode ser pescado à linha o que faz preservar o fundo desse pesqueiro. A distância era grande, envolvia tempo e apetrechos o que fazia da garoupa o peixe mais procurado e desejado para as patuscadas. O carapau e a sardinha, embora muito apreciados, não eram os peixes mais desejados porque estes obtinha-mos com muita facilidade e gratuitamente. Por isso, o peixe com preço mais elevado (5$00/kg, nos anos 60) era a garoupa.

7º ao 14º - A Etnografia. Na região existem três etnias. Os Mucurocas, os Mucubais e os Mucancalas. O povo que habita as margens do rio Curoca é Mucuroca e foi ele que esteve sempre muito próximo dos primeiros colonos. Estes chamaram-lhes Quimbares e são eles que actualmente habitam e são os pescadores de Tômbua. Os Quanhamas, habitantes da fronteira com o Sudoeste Africano, chegavam a Porto Alexandre para trabalharem na indústria da pesca. São pastores de gado bovino e caprino (cavalar?). A sua sociedade é matriarcal. Todos os bens pertencem às mulheres. Este povo tem particularidades muito interessantes: Tem uma estatura idêntica à nossa, 1,6 m aproximadamente, moderado no comer e no beber, limpeza absoluta no corpo e no traje. Aprecia as cores garridas na roupa e na bicicleta. Usa perfume que normalmente é enjoativo ao nosso olfacto. O orgulho na bicicleta é primorosamente incomparável. Extremamente decorada, equipada com farolim e stop, retrovisor, campainha, buzina de fole, bandeirinhas e rádio. Quando termina o contracto da pesca é vê-los com a bicicleta em cima do machimbombo (autocarro) em direcção à sua terra natal. Os Mucubais são fortes e espadaúdos, altos e untam-se frequentemente com terra vermelha para se protegerem do sol. Apareciam por lá para se abastecerem ou por questões de saúde mas nunca se dedicaram à pesca. São de terras afastadas, vivem do pastoreio e da caça. Usam turbantes e peles de animais que lhes envolve o corpo. Os Mucubais ou também conhecidos por Cuvales têm a sua origem nos Hereros (muitas semelhanças com os Massai) que predominam a região meridional de África. Não admitem cruzamentos de raças pelo que punem severamente qualquer violação matrimonial. Os Mucancalas são conhecidos no mundo inteiro pelos Bochímanes ou Kalahari San. São um povo ainda recolector vivendo em plena liberdade. Aparecem por lá esporadicamente, um, dois ou três elementos, sempre em trânsito. São caçadores astutos nunca se perdem no deserto, palmilham que se fartam, carregam a azagaia (com veneno) e pouco mais. Para sobreviver no deserto para eles não há segredo. São amulatados e de olhos (rasgados) achinesados. Para beberem no deserto desenterram tubérculos que eles bem conhecem. A cada conjunto de palavras emitem um estalinho com a língua. Embora apareçam no mercado cinematográfico algumas fitas a tentar retratá-los, existe apenas um “Os deuses devem estar loucos” que é fiel quanto ao indivíduo que apresentam como actor. Crê-se que (há milhões de anos) vieram do oriente (China provavelmente), entraram em África e ocuparam toda a faixa meridional. Entretanto os negros expandiram-se e empurraram-nos para os dois desertos que se encontram a sul de África (Deserto do Kalahari e o do Namibe). Os negros descansaram pensando que no deserto os bochímanes não sobreviveriam. Puro engano, ainda hoje parte deles lá sobrevive e, curiosamente, os negros continuam a detestá-los de morte. As autoridades portuguesas tiveram alguns problemas de justiça por não conseguirem lidar com esses problema.

1 comentário:

José disse...

Caro amigo, plenamente de acordo consigo no que toca aos Mucancalas. É pena que não se dê ao mundo a verdade de que Angola não era terra de Bantos, mas sim de Mucancalas. Os Bantos vieram dos grandes lagos, duzentos ou trezentos anos antes dos Portugueses chegarem a Angola... A raça Banto é do pior que existe. Onde se instala destroi tudo...seja animal ou vegetal... A história ainda há-de julgar os autores da "exemplar descolonização".
E a própria natureza há-de repôr a justiça. A Sida fará o seu trabalho em África!...